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Title: É hora de repensar a receita neoliberal que propõe abertura irrestrita do país, por Benjamin Steinbruch
Author: CFVV
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Há mais de duas semanas, o mundo assiste os movimentos do novo presidente dos EUA, a surpresa Don...
Há mais de duas semanas, o mundo assiste os movimentos do novo presidente dos EUA, a surpresa Donald Trump. 

Um ano atrás, nem de longe se imaginava que ele, com suas ideias superconservadoras, pudesse chegar ao posto mais poderoso do planeta. 

Eleito com minoria de votos populares, mas com maioria no Colégio Eleitoral, Trump entrou na Casa Branca e deixou o mundo assustado. Analistas bem informados garantiam que ele, após a posse, atenuaria seu discurso radical e deixaria de lado as polêmicas promessas de campanha. Seria um "Trump light". 

Não foi o que ocorreu. Ele logo assinou ordens executivas que deixaram o mundo de boca aberta. Primeiro, revogou a adesão dos EUA à TPP (Parceria Transpacífico), assinada por Obama e que criaria uma zona de livre-comércio com o Japão e outros dez países. Tratava-se de aliança estratégica, cujo objetivo claro era conter o avanço da China na Ásia. 

Em seguida, Trump tratou de confirmar sua mais divulgada promessa: um muro para separar o México dos EUA. Anunciou o início da construção e, ao mesmo tempo, uma taxação de 20% sobre produtos importados do México para que, com esses recursos, a obra possa ser paga. 


Foi um ataque desnecessário contra um parceiro de longos anos, um vizinho mais pobre e menos poderoso. 

O objetivo do muro é barrar a invasão de mão de obra mexicana. Mas Trump foi além nessa área e adotou várias restrições à imigração. Entre elas, proibiu a entrada no país, por 90 dias, de cidadãos de sete países. 

Foi um golpe logo revidado por manifestantes no país e que desagradou a empresas americanas, principalmente as do setor de tecnologia, que importam regularmente mão de obra qualificada. 

Uma trapalhada ou "trumpalhada" são termos que qualificam o início do governo Trump. Disso tudo, porém, já é possível tirar conclusões, algumas que servem para o Brasil. 

A primeira é que o mundo caminha inevitavelmente para uma fase protecionista em matéria de comércio. E não só pelo efeito Trump. A saída do Reino Unido da União Europeia faz parte desse roteiro. 

É hora, portanto, de repensar o ingênuo receituário neoliberal que propõe a abertura irrestrita do país e a entrega das empresas à sua própria sorte, sem apoio e proteção de nenhuma natureza para o capital nacional. 

A segunda conclusão é que a questão das imigrações, mais grave do que se imaginava, pode se tornar explosiva. Refugiados precisam de refúgio. E isso os países ricos não podem negar por razões humanitárias. Restrições como a de Trump ajudam a aumentar o ódio que hoje irriga as ações terroristas. 

A terceira é que o cidadão, nos EUA, aqui ou em qualquer nação democrática, vota pensando no seu bem-estar. Quer crescimento, emprego e renda. Embora a economia dos EUA tenha crescido em média 2,1% anuais no pós-crise de 2008/2009 e haja pleno emprego, a renda dos salários caiu bastante. Essa perda e o medo de outras ajudaram a içar Trump à Casa Branca. 

Isso reforça a ideia de que os empreendedores nacionais não podem ser entregues à sua própria sorte, com juros imorais, falta de crédito e carga fiscal exagerada, com a ideia infantil de que o mercado pode resolver todos os problemas. 

A perda de competitividade é uma porta já escancarada para a invasão estrangeira, que mata negócios, impede investimentos, ceifa empregos e extermina o futuro. É preciso ter olhos abertos para a exportação de empregos e deixar de olhar torto para o capital nacional. 

É empresário, diretor-presidente da CSN, presidente do conselho de administração e 1º vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada duas semanas. 


Fonte: Folha de S. Paulo
Publicada em:: 07/02/2017

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